As prostitutas também são mulheres trabalhadoras

Texto do deputado Jean Wyllys publicado na Carta Capital (05/12/2013).

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Muito me surpreenderam os ataques públicos de um grupo de mulheres da CUT contra o “PL Gabriela Leite”, projeto de lei que regulamenta o trabalho das/dos profissionais do sexo e o distingue do crime de exploração sexual; projeto construído democrática e participativamente pelas prostitutas organizadas e apresentado por mim, a pedido delas, na Câmara dos Deputados. 

E muito mais me surpreenderam as declarações maliciosas da secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Rosane Silva (gostaria que ela lembrasse que as prostitutas que escreveram o projeto também são mulheres trabalhadoras), que disse que eu estou “pressionando” minha amiga e parceira de lutas, a deputada Érika Kokay, para que assuma a relatoria do projeto. A deputada Érika é uma pessoa de convicções e não permite que ninguém a pressione; mas me parece que, ao contrário do que foi dito, essa declaração contra o projeto é que pretende ser uma forma de pressão (inútil) contra ela, para que não assuma a relatoria ou se pronuncie contra o projeto para não contrariar um setor do seu partido.

Sim, do partido, porque é claro que essa declaração de algumas mulheres da CUT é, na verdade, uma declaração de algumas mulheres do PT contra um parlamentar do PSOL que faz oposição de esquerda ao governo Dilma – declaração que tem um olho no cálculo eleitoral para 2014. As mulheres da CUT nunca me procuraram para conversar sobre o Gabriela Leite — como, em outras ocasiões, já me procuraram para apoiá-las em outras lutas das quais também faço parte, como a luta pela legalização do aborto e contra o assédio moral no mercado de trabalho —, como também não procuraram o movimento das prostitutas; o que, sem dúvidas, teria feito se tivesse um interesse real – e não apenas partidário – em debater essa reivindicação da categoria que eu, como deputado de um partido de esquerda que quer representar os interesses da classe trabalhadora e não tem medo de fazê-lo mesmo quando envolve temas “polêmicos”, decidi defender no Congresso.

É lamentável que as mulheres da CUT não levem em conta o trabalho que eu faço em outras frentes contra a exploração sexual de mulheres e crianças ou as emendas que destinei para políticas que deem oportunidade para mulheres prostitutas pobres que desejem deixar de ser prostitutas.

E é lamentável que não respeitem também a liberdade das mulheres prostitutas que querem continuar sendo prostitutas e ter seus direitos reconhecidos.

É curioso que as mulheres da CUT, por um moralismo não assumido, atentem contra as liberdades individuais e contra o direito de uma mulher de dispor sobre seu corpo, colocando-se ao lado do discurso dos fundamentalistas que impulsionam projetos para criminalizar o trabalho sexual, como o PL-377/2011 do deputado fundamentalista João Campos, o mesmo que defendia a bizarra lei de “cura gay”.

É chocante que as mulheres da CUT não enxerguem o óbvio: que a prostituição como atividade praticada por uma pessoa adulta e capaz é diferente da exploração sexual (esta, sim, é um crime a ser enfrentado; seja quando vitima mulheres, seja quando vitima crianças e é chamada equivocadamente de “prostituição infantil”) e que o Gabriela Leite – elaborado por mulheres prostitutas organizadas politicamente (quem melhor para falar em nome delas do que elas mesmas?) – diz respeito à prostituição como exercício da liberdade individual ou ao meio de sobrevivência de uma pessoa adulta, e a distingue da exploração sexual, inclusive apontando os meios de enfrentamento desse mal (a exploração sexual).

O “PL Gabriela Leite” – que leva o nome dessa saudosa lutadora, querida amiga, exemplo de luta e inspiração para mim e para muitos e muitas, recentemente falecida – é uma iniciativa das próprias trabalhadoras sexuais organizadas. Durante a minha campanha, elas me procuraram para debater esse assunto e colocar suas reivindicações em minha agenda, e eu assumi o compromisso de tocar essa pauta na Câmara, caso fosse eleito — eu eu honro minhas promessas de campanha, mesmo que impliquem num custo político por contrariar o senso comum, os preconceitos e os lobbys das corporações. Já deputado, mantive reuniões com trabalhadoras sexuais, tanto mulheres heterossexuais quanto travestis e transexuais, de diferentes estados, e também consultei a opinião dos garotos de programa — mas, como eles não estão organizados, não participaram como coletivo da redação do projeto. Tenho pelos trabalhadores e trabalhadoras sexuais o mesmo respeito — e o mesmo compromisso de acompanhar suas lutas — que por qualquer outro trabalhador ou trabalhadora.

O “PL Gabriela Leite”  como todo projeto, pode ser melhorado com o debate, mas este precisa ser honesto e qualificado, sem baixarias e, sobretudo, deve incluir aqueles e aquelas que são sujeitos políticos dessa luta. Devemos deixar atrás a arrogância de pensar e decidir em nome de quem que nem sequer convidamos a participar de uma discussão que diz respeito a sua vida. Quando Gabriela me trouxe essa demanda e eu comecei a me reunir com as prostitutas em diferentes estados e cidades, a dialogar com elas e a ouvir suas experiências de vida e suas reivindicações, ficou claro para mim que eu sabia muito pouco e precisava aprender. Aprendi com elas e estou muito agradecido! Um representante do povo precisa ouvir, não apenas falar! Tem aspectos do projeto que eu só entendi depois de ouvi-las, e gostaria que aqueles que fazem ataques tão levianos tivessem a mesma disposição e humildade.

O debate sobre a prostituição, tanto no movimento feminista quanto no movimento LGBT, está longe de acabar. Não há uma opinião comum, nem no Brasil, nem no mundo. Há quem seja a favor da regulamentação do trabalho sexual (como eu) e há quem seja abolicionista e considere que toda forma de prostituição é uma forma de “mercantilização do corpo da mulher” — esquecendo, aliás, a prostituição masculina.

Eu defendo que todos e todas nós sejamos donos do nosso próprio corpo e, pelo mesmo motivo que sou a favor do direito das mulheres a decidir sobre a interrupção voluntária da gravidez, sou contra a criminalização dos usuários de drogas atualmente ilegais, sou a favor do direito das pessoas trans a fazerem cirurgias de transgenitalização e/ou tratamentos hormonais (se assim o desejarem!) e a ter seu nome e sua identidade reconhecida (independentemente do que façam com o corpo), sou a favor da morte digna e da autodeterminação sobre o fim da própria vida; também considero que toda pessoa adulta e capaz tem direito a decidir livremente se quer exercer a prostituição.

Considero que há uma parte da esquerda e do feminismo que tem uma posição conservadora e moralista sobre o uso do corpo e sobre a sexualidade (moralista e, inclusive, machista!), pela qual comete a contradição ideológica de defender o direito da mulher a abortar mas, ao mesmo tempo, pretender que o Estado tutele o corpo dela quando se trata da prostituição. Se o trabalho sexual é uma forma de mercantilização do corpo, qualquer trabalho que envolva o corpo também é! O que é que diferencia o pênis, a vagina ou o ânus das partes do corpo que usamos em outros trabalhos considerados “braçais”, a não ser os tabus que interditam a sexualidade e querem escondê-la sob uma redoma sombria e custodiada por demônios?

“Eu sou mulher, mãe, filha, avó e puta”, dizia Gabriela Leite, desafiando o sentido pejorativo e preconceituoso da palavra. Já é hora de que nos assumamos: veados e sapatões, putas, negros, macumbeiros, nordestinos, favelados, latino-americanos, sem medo nem vergonha de dizer quem somos, sem medo nem vergonha de sermos felizes.

O Estado deve combater a exploração sexual e o tráfico de pessoas e garantir que ninguém seja obrigado/a (por um proxeneta, pela máfia ou por circunstâncias sociais) a exercer a prostituição. E, da mesma maneira, o Estado deve reconhecer os direitos daquelas pessoas que decidem se dedicar ao trabalho sexual, sejam do gênero masculino ou feminino. Sei que, por dizer isso, posso ser tachado de “liberal”. Ora, não tenho medo de ser “liberal” para defender o direito ao aborto ou à prostituição, da mesma maneira que, para defender os interesses da classe trabalhadora, não tenho medo de ser socialista.

Porém, essa discussão ideológica (teórica), que é muito interessante e deve ser feita, não pode ter mais destaque que os anseios humanos, reais, marcados no corpo, daqueles e daquelas que, como as prostitutas que me procuraram quando eu era, ainda, candidato (e elas acreditaram que, se eleito, poderia ser dos poucos que topariam, sem medo nem vergonha, defender as putas), precisam de nós para ter garantidos seus direitos fundamentais.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/cut-as-prostitutas-tambem-sao-mulheres-trabalhadoras-5575.html

Filme “Um beijo para Gabriela” será exibido no Cine Pagu

Nesta quinta-feira (20 de junho),  o Cine Pagu exibirá o filme “Um beijo para Gabriela” de Laura Murray.  O filme retrata a campanha de Gabriela Leite, em 2010, à deputada federal. Gabriela foi a primeira prostituta de quem se tem notícia a concorrer a um mandato no Congresso Nacional brasileiro.  Para mais informações sobre o filme acessar: http://www.umbeijoparagabriela.com

Após exibição do filme será realizada uma mesa redonda com a presença da diretora Laura Murray, da Gabriela Leite (ativista do movimento nacional de prostitutas e fundadora da grife DASPU) e do antropólogo José Miguel Olivar (pós-doutorando, pesquisador do Núcleo PAGU e autor do livro “Devir Puta: políticas da prostituição na experiência de quatro mulheres militantes”).

Cine Pagu - Um beijo para Gabriela

 

 

 

 

Lançamento do livro Devir Puta – José Miguel Nieto Olivar

Com alegria divulgo o lançamento do livro Devir puta – políticas da prostituição de rua na experiência de quatro mulheres militantes de autoria do pesquisador José Miguel Nieto Olivar. O lançamento será realizado no dia 21 de junho, às 19h, na Livraria Palavraria localizada na Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim – 90420-111 – Porto Alegre/RS.

Segue, abaixo, resenha do livro elaborada pela Adriana Piscitelli pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero-PAGU.

livro Devir puta

Método Paulo Freire completa 50 anos: acervo digital disponibiliza obra do educador

Experiência de Alfabetização em Angicos/RN - 1963 Fonte: acervo.paulofreire.org

Experiência de Alfabetização em Angicos/RN – 1963
Fonte: acervo.paulofreire.org

O método Paulo Freire de alfabetização completa 50 anos, pois foi aplicado pela primeira vez em 1963 na região central do Rio Grande do Norte na experiência que ficou conhecida como “As 40 horas de Angicos” que resultou na alfabetização de 300 angicanos. O método Paulo Freire promove a leitura da palavra a partir da leitura de mundo, isto é, por meio da seleção de palavras geradoras que trazem significados referentes à realidade vivida pelos alfabetizandos, o processo de alfabetização vai além da simples codificação e decodificação de palavras e busca favorecer uma leitura crítica do mundo.

Internacionalmente respeitado, os livros do educador Paulo Freire foram traduzidos em mais de 20 línguas. No Brasil, tornou-se um clássico, obrigatório para qualquer estudante de pedagogia ou pesquisador em educação. Detentor de pelo menos 40 títulos honoris causa (concedidos por universidades a pessoas consideradas notáveis), Freire recebeu prêmios como Educação para a Paz (Nações Unidas, 1986) e Educador dos Continentes (Organização dos Estados Americanos, 1992).

O Centro de Referência Paulo Freire, dedicado a preservar e divulgar a memória e o legado do educador, disponibiliza vídeos das aulas, conferências, palestras e entrevistas que ele deu em vida. A proposta tem como objetivo aumentar o acesso de pessoas interessadas na vida, obra e legado de Paulo Freire. Para os interessados em aprofundar os ensinamentos freirianos, o Centro de Referência também disponibiliza artigos e livros que podem ser baixados gratuitamente no link: http://acervo.paulofreire.org/xmlui/handle/7891/2

 

 

 

Documentário – Um beijo para Gabriela

O documentário ‘Um Beijo para Gabriela’, com direção de Laura Murray,  apresenta momentos da campanha a deputada federal, em 2010, de Gabriela Leite, a primeira prostituta de quem se tem notícia a concorrer a um mandato no Congresso Nacional brasileiro. No site http://www.umbeijoparagabriela.com há mais informações e fotos sobre o documentário. Além disso, há também uma seção intitulada ‘Papos da Gabi’  definida como um espaço (des)compromissado para debater assuntos sem amarras politicamente corretas,  a qual apresenta textos muito interessantes. Vale a pena conferir!

Segue abaixo um trailer do documentário:

Nova edição do Beijo da Rua – Copa do Mundo e Prostituição

Já está no ar nova edição do ‘Beijo da Rua’ – jornal produzido pela ONG Davida – que neste mês aborda mitos e fatos relacionados ao tráfico de mulheres e à prostituição em Copas do Mundo.  Fundado por Gabriela Leite, o jornal tem Flávio Lenz como editor, a edição de abril teve arte de Sylvio de Oliveira e recebeu tratamento de imagens de Reginaldo Pimenta, bem como apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

 Essa edição traz além da tradicional coluna da Gabi (de Gabriela Leite), matérias sobre associações da categoria (Davida, Daspu, Gempac) e artigos de Veronika Munk (TAMPEP – Alemanha), Flavio Lenz, Elaine Bortolanza (PUC-SP), Fabiana Rodrigues de Sousa e Maria Waldenez de Oliveira (GETS/UFSCar), Thaddeus Gregory Blanchette (UFRJ),  José Miguel Nieto Olivar (PAGU/Unicamp). O link para acessar a nova edição é:

http://www.beijodarua.com.br/abril2012.pdf

Este ano, a Revista de História da Biblioteca Nacional (edição de fevereiro) publicou um artigo intitulado ‘Prostituta não é vagabunda’ de Pedro Lapera que traz um breve histórico do Jornal Beijo da Rua, o qual foi apresentado como “um marco do movimento de conscientização sobre os direitos e a organização das profissionais do sexo.”

Edição Dez. 1988

Ainda de acordo com informações apresentadas no referido artigo, o jornal Beijo da Rua visa a “mostrar que a prostituta não é uma vagabunda ou então o resultado do capitalismo selvagem, mas sim a linha direta de uma sociedade que morre de medo de encarar sua sexualidade e, consequentemente, se sente profundamente ameaçada quando a prostituta mostra seu rosto”.  A matéria está disponibilizada no endereço: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/por-dentro-do-documento/prostituta-nao-e-vagabunda

19 de setembro – 90 anos do educador Paulo Freire

 

“Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água, a vida.”   (Paulo Freire)

 

Freire completaria 90 anos, nesta segunda-feira

E é assim que recordamos do educador Paulo Reglus Neves Freire que nasceu no Recife, em 19 de setembro de 1921 e faleceu em São Paulo, no dia 2 de maio de 1997. Hoje, comemora-se os 90 anos de Paulo Freire.  Diferentes associações organizaram ações, ao longo deste ano,  para celebrar os 90 anos de Paulo Freire:

– O Grupo de Pesquisa Práticas Sociais e Processos Educativos da UFSCar realizou , em 29 de agosto, Seminário em Comemoração dos 90 anos do nascimento de Paulo Freire com participação de Ana Maria Freire (viúva de Freire) e Mestre Isael;

– O Centro de Documentação Científica (Cedic) e Cátedra Paulo Freire da PUC-SP promoveram, no dia 1 de setembro, um ato solene em comemoração aos 90 anos do nascimento do educador Paulo Freire na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Além disso, o Cedic (da PUC-SP) disponibilizará 70 fitas VHS recuperadas para consulta de pesquisadores e estudantes;

– A Editora Fundação Perseu Abramo, em parceria com a Editora da Universidade de Brasília (UnB), relança em 19 de setembro o título “Comunicação e cultura: as ideias de Paulo Freire”, de Venício Artur de Lima. Publicado originalmente há exatas três décadas, a nova edição traz uma versão revisada, citações adicionais e prefácio de Ana Maria Freire;

– A Prefeitura do Recife promove o Encontro Internacional Paulo Freire – sua pedagogia como paradigma para o século XXI, que reúne 5.500 profissionais da Rede Municipal de Ensino, no perído de 19 a 21 de setembro;

– A Faculdade de Educação da UnB promoverá a Semana Universitária  com o tema 90 anos de Paulo Freire: um marco para a reflexão sobre os rumos da universidade brasileira. O evento é gratuito será realizado no período de  1 a 8 de outubro de 2011, no campus da UnB da Asa Norte, de Planaltina, da Ceilândia e do Gama.

– A Câmara Legislativa do Distrito Federal realiza sessão solene, em 19 de setembro, a fim de comemorar a renomada trajetória de Paulo Freire. Em 20 de setembro, será realizado o I Encontro Paulo Freire no Distrito Federal, o evento vai reunir estudantes e educadores durante o dia inteiro para refletir sobre o passado, presente e futuro da educação brasileira e os impactos de políticas educacionais a partir do método Paulo Freire.

Ações como essas demonstram que apesar de seu falecimento, Paulo Freire continua vivo, uma vez que sua obra continua a inspirar diversos educadores, pesquisadores e movimentos sociais voltados à transformação da realidade social.

Segue abaixo, vídeo da última entrevista com Paulo Freire realizada por Luciana Burlamaqui em abril de 1997.

 

UFSCar realizará homenagem aos 90 anos de nascimento do educador Paulo Freire

cartaz do evento

No dia 29 de agosto, será realizada a palestra “Comemoração dos 90 anos do nascimento de Paulo Freire”. No evento será abordado o legado e as principais contribuições de Freire para a educação brasileira, sob o olhar de Ana Maria Araújo Freire ( doutora em Educação pela PUC-SP e esposa de Paulo Freire) que acompanhou o educador nos últimos dez anos de sua vida.

O evento contará também com a apresentação cultural do mestre de capoeira Izael Teixeira.  A palestra é promovida pelo grupo de pesquisa “Práticas Sociais e Processos Educativos”, vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Educação da UFSCar. A atividade marca a abertura do III Seminário de Pesquisas em Práticas Sociais e Processos Educativos.

A atividade é gratuita e aberta a todos os interessados. A palestra tem início às 19 horas, na Sala de Projeções do CECH, na área Sul do campus São Carlos (no AT2). Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (16) 3351-8356.

Livro Leão-de-chácara – João Antônio

 

Capa do livro Leão-de-chácara - 7a. edição

 

Leão-de-chácara é o título do segundo livro do autor publicado em 1975, com o qual ganhou o prêmio de ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte. A obra reúne quatro contos apresentados como: Três contos do Rio (Leão-de-chácara, Três Cunhadas- Natal 1960 e Joãozinho da Babilônia) e Um conto da Boca do Lixo (Paulinho Perna Torta). O conto que dá nome ao livro é narrado por um homem que exerce a “leonagem”, ou seja, trabalha como porteiro de casas noturnas no Rio de Janeiro. As recordações do narrador são marcadas pela análise da função atribuída a cada pessoa que atua em contextos prostitucionais, bem como descortina o que motiva algumas decisões políticas que visam a controlar o exercício da prostituição.

“O ano preto do trottoir foi o do IV Centenário. Os homens dos costumes partiram ansiosos para as ruas e de supetão fecharam hotelecos, meteram muito explorador e mulheres na cadeia. Vieram outras polícias e engrossaram a barra. Um tempo feio, um rabo de foguete. Os homens queriam limpar a cidade que ia receber gente importante e precisava ficar bonitinha para o IV Centenário” (trecho extraído do conto que dá nome ao livro)

Os contos de João Antônio trazem à tona as experiências vividas por membros de grupos sociais marginalizados, tais como malandros, jogadores de sinuca, prostitutas, leões-de-chácara, meninos de rua, dentre outros.

João Antônio

Os rótulos de “escritor do submundo” ou de “autor da marginalidade” acabam por reduzir os diversos sentidos da obra de João Antônio composta por textos que nas palavras de Jesus Antônio Durigam “buscam a todo momento desvendar e sustentar, ao nível dos cortes não cicatrizados, as contradições que tecem a realidade significativa, sempre com o olhar voltado da periferia para o centro, do resíduo para o sistematizado, do excluído para o integrado.

 

 

 

Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta (Gabriela Leite)

Gabriela Leite foi prostituta da Boca do Lixo, em São Paulo, e da Vila Mimosa,  no Rio de Janeiro, cursou sociologia na Universidade de São Paulo, mas não chegou a se formar. No livro “Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta”, publicado pela editora Objetiva, ela narra sua trajetória desde a infância vivenciada no casarão da Rua Domingos de Moraes, na Vila Mariana, à criação da grife Daspu em 2005.

Já no título do livro surge a primeira polêmica: conciliar as palavras filha, mãe e avó com a palavra puta, além de afirmar a decisão em tornar-se prostituta. Infelizmente, no imaginário popular ainda existe o binarismo que separa a boa mulher (do lar, a filha, a mãe e a avó) da mulher má (mulher pública, de vida fácil, a puta) levando-nos a falsa compreensão de que a prestação de serviços sexuais corrompe a essência feminina de tal forma que prostituta seja incapaz de exercer os papéis socialmente atribuídos às mulheres. Sob esse viés, a prostituta passa a ser percebida como desviante, delinqüente e degenerada, mas existem também aqueles que preferem olhar para essa mulher como uma vítima que “caiu no mundo da prostituição”, provavelmente, pela indução de alguma figura masculina. Gabriela se opõe a essa visão:

 

“O mundo não é feito de vítimas. Todo mundo negocia. Alguns negociam bem, outros mal. Mas cada um sabe, o mínimo que seja, quanto vale aquilo que quer. E sabe até onde vai para conseguir o que quer. Com a prostituta não é diferente (Gabriela Leite)”.

 

Gabriela Leite desvela ao longo de sua narrativa que a prostituta nem sempre é vítima da situação em que se encontra. A prostituta também pode configurar-se como sujeito de sua prática, sendo capaz de identificar fatores opressivos presentes em sua realidade e de criar estratégias para minimizá-los. Foi nas experiências vivenciadas em contextos de prostituição que Gabriela desenvolveu sua formação política e criou, em 1992, a ONG Davida que defende os direitos das prostitutas, a regulamentação da profissão e luta contra a ideia de vitimização que insiste em tratar a prostituição apenas como falta de opção para mulheres em situação de pobreza. Gabriela também é uma das idealizadoras da grife Daspu, criada com as prostitutas da Praça Tiradentes do centro do Rio de Janeiro, no final de 2005, uma alternativa para obter recursos a fim de custear os projetos que visam ao desenvolvimento pleno da cidadania das prostitutas.

O livro apresenta o caminhar de Gabriela Leite em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, a militância, a organização do movimento de prostitutas, bem como as dores, amores, dificuldades e superações enfrentadas no exercício da prostituição e na vida familiar. Ela destaca que a prostituição não é uma profissão fácil e que a paixão é um elemento fundamental para suportar as contradições e os chamados ossos do ofício. Em que profissão podemos dizer que seja diferente?

 

 

 

 

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