O buraco é mais embaixo: tráfico de pessoas não é sinônimo de prostituição

Recentemente observei que vem sendo veiculadas na internet  notícias sobre a próxima novela da Globo dirigida por Glória Perez, na qual a atriz Carolina Dieckman interpretará a personagem Jéssica, supostamente uma prostituta. Digo supostamente, pois segundo informações divulgadas na página da Marie Claire a personagem interpretada por Dieckman vai parar na Espanha acreditando ter conquistado um emprego de balconista. Mas ao chegar lá, Jéssica terá de se prostituir e revelará ao público como funciona o sistema do tráfico internacional de mulheres.

Em entrevista cedida à Marie Claire, ao ser indagada sobre como é ficar tão próxima do universo do tráfico de mulheres, a atriz respondeu: Eu estou superemocionada, eu chorei muito nas primeiras gravações, fora de cena. As pessoas não têm ideia, existe muita gente que é enganada, que sabe que vai trabalhar como prostituta, mas não tem noção que vai morar num cativeiro e que será obrigada a transar com 20 caras num dia, por exemplo. O buraco é mais embaixo.”

Diante do exposto, considero que a atriz não interpretará uma prostituta, pois sua personagem Jéssica não foi à Espanha para prestar serviços sexuais voluntariamente.  Ela foi enganada,  presa em cativeiro e obrigada a prestar serviços sexuais, nesse caso, houve coação e ela se converte em uma vítima do tráfico de pessoas, ela não é prostituta, mas sim uma escrava sexual.

Realmente o buraco é mais embaixo, e embora tráfico de pessoas não seja sinônimo de prostituição, não é raro encontrar discursos homogeneizantes, não só na internet mas em diferentes meios de comunicação,  que tendem a juntar tudo no mesmo balaio – prostituição, tráfico de mulheres, exploração infanto-juvenil, turismo sexual. Isso não é feito por acaso, mas com intenção de retratar a prestação voluntária de serviços sexuais como atividade que fere a dignidade das mulheres e viola os seus direitos.

Mas poucos discursos denunciam que, infelizmente, os direitos das mulheres são violados em distintas ocupações e não só no exercício da prostituição. Poucos levam em consideração que a violação aos direitos das mulheres prostitutas decorre principalmente do estigma e  hipocrisia de nossa sociedade, que por um lado tolera essa prática porque demanda serviços sexuais e por outro condena quem presta tais serviços. Não é preciso interpretar (ou ser) uma prostituta para perceber (e sentir) que nós mulheres, historicamente, fomos – e ainda somos – tratadas como objeto e isso não ocorre exclusivamente com a prostituta. A convivência e o diálogo com prostitutas têm me ensinado que não basta fazer essa constatação e continuar aderindo a essa condição, pois a transformação da realidade depende da humildade para que possamos nos unir e nos assumir como sujeitos capazes de criar e recriar a nossa história.

Anúncios

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Trackback: CONVITE sobre trabalho sexual | Promotoras Legais Populares de São Carlos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: