Músicas e Prostitutas – MAL NECESSÁRIO

Em homenagem às prostitutas, durante o mês de junho publicarei alguns posts sobre canções que fazem alusão à essas mulheres e à prática da prostituição. Ao contrário de algumas abordagens teóricas que insistem em retratar essa ocupação de forma homogênea, as canções brasileiras se constituem como uma linguagem eficaz no sentido de descortinar a prostituição como prática plural e multifacetada.

A canção “Mal necessário” (composição de Mauro Kwitko e interpretação de Ney Matogrosso) dará início a esta série.  O compositor Mauro Kwitko fez a música após uma visita ao Ney, em 1978. E sobre o processo de criação ele diz:  “Quando cheguei em casa, sentei no chão da sala e, depois de um tempo em que estive fora de mim, a letra estava escrita e a melodia pronta. Acordei, peguei o violão, e cantei a letra. Telefonei para ele (referindo-se a Ney Matogrosso), que me pediu para retornar a sua casa. Cantei a música, ele pegou um gravador cassete, gravou, não tinha nome. Pedi a ele que desse o nome, pois a música era para ele. Chamou de “Mal Necessário” e foi o sucesso que ainda é passados 32 anos!” .      Ao  ser   questionado   sobre o que a letra diz,   Kwitko   afirma:     “Nem eu sei bem… Ela é um Mantra e um Mantra não pode ser entendido racionalmente, não se explica um Mantra, se sente”.  (Fonte: maurokwitkomiscelaneas.wordpress.com).

Inicio essa série com esta canção, pois sinto que ela tem diversas relações com o cotidiano vivenciado por pessoas que exercem prostituição. O próprio título já faz uma alusão a essa atividade, uma vez que a prostituição mesmo sendo reconhecida como ocupação desde 2002, ainda hoje é percebida como “mal necessário” por muitos grupos sociais. Todavia a canção evita análises binárias (bem x mal) e felizmente assume as distintas conotações “sou o certo/sou o errado”.  Durante convivência com prostitutas de casas noturnas de São Carlos pude perceber que essa prática pode ser ressignificada de diversas maneiras pelas mulheres que dela se ocupam apresentando-se como espaço de possibilidade de vivenciar o amor, a amizade, a solidariedade, a diversão, o prazer, processos de escuta, etc, dessa forma o estar na noite não ganha apenas a conotação de exploração/opressão/ exclusão, mas também pode ser entendido como “lugar no mundo”, isto é, como opção/transformação/ projeto. Abaixo, segue letra na íntegra da canção para que vocês possam senti-la e atribuir novas interpretações.

Mal Necessário

Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Sou a mesa e as cadeiras deste cabaré
Sou o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo
Sou a febre que lhe queima, mas você não deixa
Sou a sua voz que grita mas você não aceita
O ouvido que lhe escuta quando as vozes se ocultam
Nos bares, nas camas, nos lares, na lama.
Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo
O que sempre esteve vivo, mas nem sempre atento
O que nunca lhe fez falta, o que lhe atormenta e mata
Sou o certo, sou o errado, sou o que divide
O que não tem duas partes, na verdade existe
Oferece a outra face, mas não esquece o que lhe fazem
Nos bares, na lama, nos lares, na cama.
Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo
O que sempre esteve vivo
Sou o certo, sou o errado, sou o que divide
O que não tem duas partes, na verdade existe
Mas não esquece o que lhe fazem
Nos bares, na lama, nos lares, na lama
Na lama, na cama, na cama.

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