Vocação ou não: o exercício do trabalho sexual não anula a condição de ser mulher

Fabiana Rodrigues de Sousa

fabianalhp@yahoo.com.br

(Doutora em Educação/PPGE – UFSCar)

https://grupodeestudostrabalhosexual.wordpress.com

Recentemente, observamos uma polêmica em torno de uma matéria publicada no dia 27 de fevereiro, no jornal a Folha de São Paulo, na qual o autor fazendo uma releitura de Nelson Rodrigues afirmou que a vocação primeira e mais sublime da mulher é ser prostituta.  Em resposta a essa polêmica, no presente artigo elaborado na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher – marco das lutas femininas em busca da efetivação dos direitos das mulheres, ressalta-se que sendo vocação ou não o exercício do trabalho sexual não anula a condição de ser mulher. Ser prostituta é antes de tudo ser mulher, isto é, para além do exercício do trabalho sexual a vida da prostituta possui outras faces e redes de interações (família, amizades, vínculos afetivos). Ao atribuir sentido às experiências vividas, a mulher prostituta vai (re)criando a si e sua prática, não há, portanto, uma maneira universal de ser mulher e prostituta, bem como não existem condutas que sejam universalmente caracterizadas como atos prostitucionais, tais significações vão tomando corpo historicamente, isto é, modificam-se conforme tempo e lugar.

O ser humano – homem, mulher ou transgênero – não nasce feito, vai se fazendo nas práticas sociais de que toma parte, na obra O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir afirma que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, ou seja, desde a infância às mulheres são orientadas a adotar certos comportamentos e vestimentas, sofrem exigências e participam de jogos que conformam modos distintos utilizados para educar homens e mulheres, os quais delineiam a cada um diferentes perspectivas de futuro e papéis sociais. De acordo com a autora, a passividade imposta às mulheres não é resultado de um dado biológico, mas da ação de educadores que desde os primeiros anos ensinam as mulheres que “para agradar é preciso procurar agradar” e “renunciar sua autonomia”, assim, elas vão sendo desencorajadas de ousar a afirmarem-se enquanto sujeitos.

No movimento de sua existência, as mulheres incorporam ensinamentos que são frutos de uma educação diferenciada e vivenciam na pele suas consequências. O silêncio que envolve os corpos das mulheres de que nos fala Michele Perrot, na obra Os excluídos da História, constitui-se como um dessas consequências. Sendo o pudor uma marca associada à feminilidade, é comum o corpo da mulher figurar no discurso de poetas, médicos ou políticos como objeto do olhar e desejo dos homens, todavia, o corpo feminino se apresenta calado e “as mulheres não falam, não devem falar dele”. De acordo com a autora, o peso desse silêncio se manifesta de diversas maneiras nos corpos femininos, pela imposição de atributos e padrões de comportamentos como discrição, comedimento nos gestos e na expressão das emoções. Esse silêncio também envolve a vida íntima do corpo da mulher que permanece oculta para além da dimensão da procriação, “o prazer feminino é negado” e, para algumas pessoas, é interpretado como “coisa de prostitutas”.

Questionar esse silêncio, ter coragem e ousadia para ir além do que é imposto socialmente às mulheres e criar novas possibilidades de ser/estar no mundo e de vivenciar a sexualidade são exemplos de contribuições de prostitutas no sentido de se contrapor à normatização que visa a controlar o que deve ou não ser executado por mulheres. Com intuito de promover a autoestima de mulheres que se ocupam do trabalho sexual e de reivindicar a efetivação de seus direitos foi criada a Rede Brasileira de Prostitutas. Gabriela Leite – precursora dos movimentos brasileiros de organização de prostitutas – compreende a prestação voluntária de serviços sexuais como um direito sexual, ou seja, a pessoa tem o direito de exercer sua sexualidade de distintas maneiras e pode inclusive decidir se irá ou não cobrar pela oferta de serviços sexuais, uma vez que na legislação brasileira isso não é tipificado como crime desde que realizado voluntariamente por pessoa adulta.

A tendência em dividir e classificar as mulheres em função dos comportamentos adotados – boas mulheres (aquelas que seguem as convenções atribuídas ao papel feminino) x más mulheres (as que não seguem tais convenções), em vez de favorecer a promoção de seus direitos, configura-se como entrave à união e organização das mulheres na luta pela transformação dos mecanismos de opressão com que se deparam. Polemizar se a vocação primeira da mulher é ser prostituta ou ser mãe, é estar no espaço público ou doméstico, é fazer sexo por dinheiro ou por amor, infelizmente, só reafirma que ainda estamos pautados numa lógica normativa que visa a controlar a ação das mulheres ao determinar comportamentos tidos como apropriados e outros que devem ser evitados. Almeja-se que a comemoração do Dia Internacional da Mulher favoreça o questionamento e a problematização dessa tendência normativa, para que enfim as mulheres – prostitutas ou não – sejam reconhecidas como sujeitos de sua prática e possam agir sem receio de receberem o rótulo de desviantes de sua “sublime vocação”.

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