Prostituta como primeira e mais sublime vocação da mulher: matéria polêmica publicada na Folha

 Por Flávia do Carmo Ferreira (Mestre em Educação/UFSCar)

Na última segunda-feira, 27/02, Luiz Felipe Pondé escreveu em sua coluna semanal, no jornal Folha de São Paulo, que a vocação primeira da mulher é ser prostituta: “Assim como a prostituta é a primeira e a mais sublime vocação de toda mulher, afirmo: sou lido, logo existo. Saber que eu tenho um preço é uma das formas mais belas de libertação que conheço”. A frase faz alusão a um relato do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, publicado em 1967 no “Correio da Manhã”, em que ele conta os bastidores e ensaios da peça “Vestido de Noiva”, quando havia disputa entre as atrizes pelo papel de meretriz. Tão logo o conseguiam, escreve Nelson, se punham a interpretá-la “com naturalidade, graça, movimento exato e inflexão certa”, como se fossem vocacionadas para o ofício que representavam. Pondé estendeu a colocação ao gênero feminino e no mesmo texto diz que as indignações “da classe média” com a morte das baleias e com a fome na África não o preocupam e até mesmo soam falso, pois ele escolherá, citando uma passagem de o estrangeiro de Albert Camus, a hostilidade primitiva do mundo e mulheres fáceis com vestidos de verão.

Polêmica lançada. E, como resposta, os leitores do jornal se mobilizaram. Entre os que se sentiram agredidos pela coluna está a cineasta Paola Prestes, que puxou por e-mail um cordão de protestos. “Pondé revela uma arrogância ciclópica do meio intelectual contemporâneo, construído mais em divãs de psicanálise do que fruto de um pensamento rigoroso e sensível”, diz, no texto endereçado a cineastas e artistas, que endossaram a crítica. Para a escritora e militante feminista Rose Marie Muraro, “o argumento expressado é falacioso”. “A vocação primeira da mulher é a maternidade. A prostituição tem raízes patriarcais e motivação econômica. Pondé quis ser provocativo e foi apenas tolo, além de demonstrar desconhecimento da história.” O argumento da feminista parece não considerar que o mito da maternidade também possui raízes patriarcais, o qual durante muito tempo relegou as mulheres aos espaços privados e aos cuidados dos filhos e da família, dificultando que elas ocupassem os espaços públicos e se inserissem no mercado de trabalho.

Diretora da Daspu, grife de roupas criada e divulgada por prostitutas, Gabriela Leite defendeu o ponto de vista do dramaturgo e aGabriela Leite no Programa Roda Viva - 2009 alusão. “Nelson é moderníssimo, as pessoas é que não são”. Em entrevista cedida em 2009 ao programa Roda Viva, Gabriela chama atenção para que a prostituição seja vista como um direito sexual, ou seja, que a pessoa tenha o direito de se assumir enquanto puta, que possa vivenciar sua sexualidade como queira, inclusive, prestar serviços sexuais em troca de dinheiro. Poder decidir as razões pelas quais se tem ou não relações sexuais, como tê-las e negociar trocas financeiras, assim como todas as condições dessa prática, deveria ser compreendido como um direito sexual das pessoas adultas, sem que isto signifique uma culpabilização moral. Gabriela fala ainda que haverá um dia em que ser filho da puta será um elogio e não uma ofensa.

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