Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta (Gabriela Leite)

Gabriela Leite foi prostituta da Boca do Lixo, em São Paulo, e da Vila Mimosa,  no Rio de Janeiro, cursou sociologia na Universidade de São Paulo, mas não chegou a se formar. No livro “Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta”, publicado pela editora Objetiva, ela narra sua trajetória desde a infância vivenciada no casarão da Rua Domingos de Moraes, na Vila Mariana, à criação da grife Daspu em 2005.

Já no título do livro surge a primeira polêmica: conciliar as palavras filha, mãe e avó com a palavra puta, além de afirmar a decisão em tornar-se prostituta. Infelizmente, no imaginário popular ainda existe o binarismo que separa a boa mulher (do lar, a filha, a mãe e a avó) da mulher má (mulher pública, de vida fácil, a puta) levando-nos a falsa compreensão de que a prestação de serviços sexuais corrompe a essência feminina de tal forma que prostituta seja incapaz de exercer os papéis socialmente atribuídos às mulheres. Sob esse viés, a prostituta passa a ser percebida como desviante, delinqüente e degenerada, mas existem também aqueles que preferem olhar para essa mulher como uma vítima que “caiu no mundo da prostituição”, provavelmente, pela indução de alguma figura masculina. Gabriela se opõe a essa visão:

 

“O mundo não é feito de vítimas. Todo mundo negocia. Alguns negociam bem, outros mal. Mas cada um sabe, o mínimo que seja, quanto vale aquilo que quer. E sabe até onde vai para conseguir o que quer. Com a prostituta não é diferente (Gabriela Leite)”.

 

Gabriela Leite desvela ao longo de sua narrativa que a prostituta nem sempre é vítima da situação em que se encontra. A prostituta também pode configurar-se como sujeito de sua prática, sendo capaz de identificar fatores opressivos presentes em sua realidade e de criar estratégias para minimizá-los. Foi nas experiências vivenciadas em contextos de prostituição que Gabriela desenvolveu sua formação política e criou, em 1992, a ONG Davida que defende os direitos das prostitutas, a regulamentação da profissão e luta contra a ideia de vitimização que insiste em tratar a prostituição apenas como falta de opção para mulheres em situação de pobreza. Gabriela também é uma das idealizadoras da grife Daspu, criada com as prostitutas da Praça Tiradentes do centro do Rio de Janeiro, no final de 2005, uma alternativa para obter recursos a fim de custear os projetos que visam ao desenvolvimento pleno da cidadania das prostitutas.

O livro apresenta o caminhar de Gabriela Leite em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, a militância, a organização do movimento de prostitutas, bem como as dores, amores, dificuldades e superações enfrentadas no exercício da prostituição e na vida familiar. Ela destaca que a prostituição não é uma profissão fácil e que a paixão é um elemento fundamental para suportar as contradições e os chamados ossos do ofício. Em que profissão podemos dizer que seja diferente?

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: